Dê-me risadas, por favor!
Vagões lotados, gente enlatada. Tropeços na rua, humanas
coisas e maltrapilhas. Repartições quadradas, almas burocratas e paredes
pálidas. Habitações de jaulas, animais que falam e fornicam e usam a insólita
razão.
Dê-me risadas, por favor!
Alhures torneiras escassas, fortuna líquida pelo ralo cai.
Em céu aberto veias urbanas, água escura e podre. Lógica do absurdo e
metafísica cívica e igrejística, na lousa escolar e nos bancos de preces.
Insônias constantes, a madeira que estrala e as horas que passam. A noite
perdida, um tiro se dispara.
Repito, dê-me risada.
Mundo afora, mão invisível e reino da lex mercatória. Paz
perpétua, extensão da luta por corações e desertos. Todos sem todos, cada um
por si. Olho por olho, mente por mente. Mentiras repetidas cem vezes, verdade
aos partidos da mídia. Política e circo, é palco da vida.
Dê-me risadas, por favor!
Repito, dê-me risadas!
Risada é ouro em terra de loucos e lobos.

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